By Augusto Nunes

Vice-ministro da Cultura, Luís Candjimbo, em entrevista a O PAÍS, fala das actividades alusivas ao 25 de Maio

África 46 anos depois, como se pode definir hoje, se comparada com outros continentes?

Houve grandes avanços. Muitos poderão dizer que não há evidências e avanços. Referem-se apenas a questões de ordem económica, aos níveis económicos. Devo dizer que ao longo desses anos tive¬mos a concretização dos ideais, em primeiro lugar do pan-africanismo, de que a própria Unidade Africana é expressão.

Desde 1963 a 2002, muito foi feito para que se concretizassem os grandes objectivos da organização: o processo de libertação do continente, a conquista das independências políticas do continente e o processo de auto-determinação da região. Na base de tudo isto está exactamente um grande pilar que são os processos que constituem a cultura. E quando falo em processos, refiro-me aos vários debates que se desencadearam no continente e que permitem falar da afirmação cultural, da afirmação da prosperidade, particularmente o surgimento de universidades que têm prestígio. Prova disso é que há comunidades académicas, investiga¬dores, pensadores, professores que, emergindo dessas universidades, são hoje figuras respeitadas em todo o mundo. Já agora, gostaria de dizer como o Ministério da Cultura celebra, este ano, o Dia de África: vamos organizar um ciclo de conferências para o qual convidamos três eminentes professores de respeitadas universidades americanas. As actividades terão início segunda-feira, dia 25, na Universidade Katyavala, em Benguela, com a dissertação do tema ‘’Tendências actuais do discurso crítico sobre a arte contemporânea’’, pela professora Nkiru Nzegwu, da Universidade de Binghamton, prosseguindo dia 26, nas Universidades Lusíada, no Lobito, e José Eduardo dos Santos, no Huambo, com o mesmo tema. No Lubango, os jovens terão a oportunidade de debater e saber algo sobre ‘’A evolução da historiografia literária africana no contexto dos estudos africanos’’, tema que será apresentado pelo professor Simon Gikandi, igualmente da Universidade Binghamton. O mesmo acontecerá na Universidade 11 de Novembro, em Cabinda, terminando dia 29, na Escola Nacional de Administração (ENAD), em Luanda, com diferentes painéis com a mesma finalidade.

Ainda se considera África como berço da humanidade ou não passa apenas de um continente de conflitos regionais?

Somos contrários ao que alguns pensam e dizem que África não tem futuro. Só os afro-pessimistas dizem isto. O nosso país tem dado bons exemplos. Angola, enquanto Estado membro da União Africana, tem vindo exactamente a dar uma ideia contrária daquilo que pensam os afro-pessimistas. A organização continental revela que África é um continente condenado a ser uma região de paz e basta olhar para a sua historiografia para se aperceber da diminuição do foco de conflitos. Os compromissos com a paz são cada vez mais expressivos. É só olhar para a moldura institucional da UA para se concluir que existe, na verdade, uma vontade incontornável para a construção da paz no nosso continente. Temos uma arquitectura constitucional com instituições que funcionam com dinamismo, reveladores de reduzir a zero o foco de conflitos para que tenhamos um continente em paz.

Como encara África no contexto sócio-cultural e económico?

Gostaria de chamar a atenção apenas para os compromissos que existem ao nível das estratégias de integração regional. Há várias comunidades de integração, várias de intervenção regional do continente. Falaríamos aqui de uma comunidade em que nos integramos que é a SADC. As pessoas sabem e estão informadas. A SADC tem vindo a ser um belo exemplo do que podem ser as estratégias gradualistas de integração regional do nosso continente. Mas também podemos remeter para o modo como funcionam outras regiões do ponto de vista da integração regional. Há casos com mais sucessos do que outros. Mas o mais importante é referir que existe um compro¬misso inequívoco com esta necessidade de se edificar o continente com economias fortes, sólidas e, deste ponto de vista, também diríamos que temos saúde suficiente para acreditar no futuro do nosso continente.

O que dizer sobre o resgate e preservação dos valores morais e culturais africanos?

Quando fala da questão da preservação dos valores morais e culturais está a remeter para o pilar da cultura e antes de lá chegar, gostaria de chamar a atenção para um instrumento importante que revela exactamente esta ideia de que os africanos pensam sobre os seus próprios problemas. Estou a falar da NEPAD, uma nova parceria para o desenvolvimento do nosso continente, que é um instrumento importante, de resto adoptado para as estratégias da União Africana e que revela precisamente isto. Não pode haver estratégias de desenvolvimento sem que haja um pensamento elaborado sobre os problemas, e a NEPAD é prova disso. Em relação aos valores morais e culturais, existem também os instrumentos a nível do continente refiro-me aos órgãos constitutivos da União Africana, nos tratados que estão na base das organizações de integração regional. A todos estes instrumentos acresce ainda a carta do renascimento cultural, que é a nossa carta cultural continental. Todos eles têm um travejamento demarcado profunda¬mente para a necessidade de fazer¬mos a apologia dos valores positivos das tradições culturais continentais. De resto, não há, não pode haver, sociedade nenhuma no mundo de hoje que possa e deva falar de movimento, perdendo de vista os valores endógenos. E o que vemos nestes instrumentos, no acto constitutivo da União Africana, nos tratados das comunidades regionais africanas, é precisamente a necessidade de fazer um apelo constante aos valores, a cultura, às culturas, à diversidade cultural do nosso continente, que é um importante instrumento para a construção das identidades, das comunidades integradas, para valores positivos como a solidariedadee humildade dos povos de África. Repito, a humildade e a solidariedade são valores fundamentais para que tenhamos um continente a altura das nossas expectativas neste século XXI.

Como encara o desenvolvimento dos PALOP?

Sobre os PALOP, interessa-nos efectivamente destacar a vertente cultural, pese embora tenhamos alguma vontade de abordar aspectos de outros domínios. A cultura é de resto um poderoso instrumento para a construção da paz, como se lê na carta da UNESCO. Temos que fazer um constante apelo à cultura para que a paz seja um elemento permanente nas nossas vidas, enquanto cidadãos, e nas relações ao nível do Estado, de organizações e blocos de países, como é o caso dos PALOP. Temos sinais positivos nas relações culturais entre os países que integram este bloco. Basta olhar para as constantes visitas de responsáveis dos PALOP a outas capitais. A nossa capital tem vindo a ser um bom exemplo. Consideramos que os PALOP devem afirmar-se pela produção de pensamento científico nas várias áreas do saber e, particularmente, na área das ciências sociais e humanas, sem prejuízo doutras áreas científicas.

Angola acolhe o Campeonato Africano das Nações. Como o Ministério da Cultura perspectiva o movimento cultural dentro deste grande evento?

Na verdade, o CAN tem sido o momento importante da expressão cultural dos países e Estados que o organizam e não podia deixar de ser diferente em Angola. Temos que mostrar o nosso potencial do ponto de vista cultural. Como sabe, tere¬mos esta componente presente nos vários momentos em que o CAN se vai apresentar. Refiro-me, concre¬tamente, aos momentos solenes. Não podemos perder de vista que o desporto e a cultura são dois impor¬tantes pilares do modo como vivem os angolanos.

Originally appeared on Opais.


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